Repasse parece uma conta simples: um percentual sobre o procedimento. Na rotina da clínica, porém, ele depende de decisões que quase ninguém registra: sobre qual valor o percentual incide, quando o profissional recebe e o que acontece se o pagamento não chegar.
O modelo de repasse: percentual, fixo ou misto
O repasse pode ser um percentual por procedimento, um valor fixo por atendimento ou uma combinação de ambos, com um piso garantido e um percentual sobre o excedente. O percentual é o mais comum e o mais sujeito a erros, porque exige uma base de cálculo clara. Nos outros modelos o risco está em outro lugar: o valor fixo ignora o preço real do procedimento, e o piso garantido cobra da clínica nos meses fracos.
Base de cálculo: bruto ou líquido
Esta é a decisão que mais pesa no resultado. Comissão sobre o bruto parte do valor total cobrado do paciente. Comissão sobre o líquido desconta antes os custos que a clínica paga para realizar o procedimento, como impostos, taxa da maquininha e materiais.
| Procedimento de R$ 1.000 | Comissão sobre o bruto | Comissão sobre o líquido |
|---|---|---|
| Descontos considerados | Nenhum | R$ 190 (impostos, cartão e material) |
| Base de cálculo | R$ 1.000 | R$ 810 |
| Repasse de 40% | R$ 400 | R$ 324 |
| Diferença por procedimento | Referência | R$ 76 a menos |
Com 100 procedimentos desse tipo no mês, a diferença chega a R$ 7.600, ou R$ 91.200 ao ano. Os R$ 190 de descontos são um exemplo. Calcule os da sua clínica antes de decidir.
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Pagar sobre o que entrou
Repassar na data do atendimento significa que a clínica adianta o dinheiro do profissional antes de receber do paciente ou do convênio. Em convênios, com prazo de 30 a 60 dias para o pagamento, isso consome capital de giro. Uma alternativa comum é repassar sobre o valor efetivamente recebido, em uma data fixa do mês seguinte, e deixar essa regra escrita.
Glosa: quem paga quando o convênio recusa
Se o convênio glosa um atendimento que a clínica já repassou, alguém absorve a perda. Defina no contrato duas coisas: se o repasse só ocorre após o recebimento do convênio e se glosas por erro do profissional (documentação, código, preenchimento) são descontadas no repasse seguinte. Glosa sem regra costuma ficar com a clínica.
Conferência mensal
Feche o mês com uma conferência por profissional: atendimentos realizados, valores recebidos, glosas, base aplicada e repasse pago. Mostrar a memória de cálculo ao profissional reduz discussões e antecipa erros de cadastro de procedimento, que são a causa mais comum de divergência.
Forma de contratação
Como o profissional é contratado (autônomo, pessoa jurídica ou outra forma) interfere em impostos e em riscos trabalhistas, e a regra de repasse precisa ser coerente com esse formato. Valide a estrutura com seu contador e com um advogado antes de definir o modelo.
Perguntas frequentes
Comissão deve ser calculada sobre o valor bruto ou líquido?
Não existe resposta única. O importante é que a base esteja escrita no contrato com o profissional. Muitas clínicas usam o líquido, descontando impostos, taxas de cartão e custos diretos do procedimento.
O que fazer quando o convênio glosa um atendimento já repassado?
O contrato deve prever o que acontece: descontar o valor no repasse seguinte ou aguardar o recebimento do convênio antes de repassar. Sem essa cláusula, a clínica absorve o prejuízo.
Com que frequência conferir os repasses?
Mensalmente, comparando o que foi atendido, o que foi recebido e o que foi repassado a cada profissional. Divergências pequenas, acumuladas, viram conflito.
Por Vitor Aranda
Cofundador e diretor comercial da Polarie. Atua em vendas desde 2000, tem MBA em Gestão de Vendas e, pela Universidade de Viseu (Portugal), especialização em Gestão Comercial.
Repasse certo, clínica saudável
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